Tuesday, October 17, 2006

Novo BLOG

ESTE É O MEU NOVO BLOG. VOU MANTER ESTE AQUI ATÉ QUE EU CONSIGA PASSAR TODOS OS ARQUIVOS PRA O NOVO SITE.

CONTINUO NO BLOGSPOT MAS COM OUTRO ENDEREÇO. AGORA É SÓ MUDAR O ENDEREÇO ANTIGO QUE VCS TINHAM EM SEUS FAVORITOS. :)

UM FORTE ABRAÇO E ESPERO SUA VISITA EM :

DO DITO E DO DIZER: http://ditoedizer.blogspot.com

Thursday, October 05, 2006

Vermelho

Ela chegou à sala de aula atrasada; chamando a atenção de todos atravessou a sala, passando na frente da professora que, sorridentemente, saudou-a com um balançar de cabeça. Sua alegria podia ser sentida por todos. Antes de tomar o seu lugar, como que reconhecendo a presença das pessoas presentes, seus olhos atravessaram rapidamente toda a classe. Seu estilo era pungente sem, contudo, afrontar a felicidade alheia. Ela podia ser diferente porque sua diferença dava vida e insistência de viver. Sua professora não podia evitar, enquanto corrigia os deveres, de olhar as meias vermelhas da altiva aluna. Sim, porque sua compleição era altiva e intimidava – como todo adolescente, sua vida era tão vida que contaminava a velha professora que já não acreditava mais num claro futuro. O vermelho de suas meias combinava com o coração de acrílico vermelho que se dependurava em seu colar barato-daqueles que se ganha em caixa de cereais-era de um vermelho tão vivo que, novamente, enchia os olhos da professora de seus dias passados. Dias quando também fora uma estudante livre e desimpedida. Hoje, lá pelos seus quarenta anos, via-se enclausurada num mundo de coisas impossíveis, onde tudo que ela queria não lhe era possível; porque o possível fora substituído pelo provável e o transcendente pelo factível. Sentia que os sonhos agora não passavam de manchas que foram se desbotando de tantas tentativas raivosas de limpá-las. Manchas as quais ela se agarrava ainda hoje com desespero cálido, e tão ardente que era sua ânsia, queimava-lhe o semblante.

A intrigante adolescente continuava a exalar seu vermelho vivo sobre a professora. De cabeça baixa, não podia ver que a professora enrubescia sem saber pra onde olhar e como esconder as lágrimas que agora molhavam sua caderneta. As lágrimas banhavam a lista de chamada apagando alguns número e nomes... Tudo ficava muito confuso. A professora já não podia esconder a consternação que o vermelho lhe causara. Pediu pra sair, precisava de um gole de água. Em frente ao bebedouro pensou sobre sua vida. Veio-lhe à mente os dias nos quais ela também fora vermelha; nos tempos em que ela cria no vermelho da vida e seu coração ainda sonhava coisas improváveis. Tempos quando acreditava que era possível fazer tudo e ser, por que não, feliz. Tinha que voltar para sala. Mas aquela sala lhe era toda preta e branca. Ela queria cor. Queria movimento. Olhou ao redor e não viu ninguém, só a porta que dava acesso à rua logo ao fim do corredor. Lentamente deu um olhar sereno em direção à sala de aula e caminhou solenemente pra a rua. Queria o vermelho da existência. As meias de uma aluna estavam marcadas em sua alma.Será?Ainda não sabia se isso seria possível, mas para que ter certeza? Era muito improvável, mas era justamente esta sensação de insegurança e queda que lhe dava um ânimo já há tempos esquecido.

Saiu da escola sem se despedir. Ainda estava ruborizada ..e caminhou....caminhou... Caminhou... Caminhou.

Tuesday, October 03, 2006

“ L’amour est un oiseau rebelle”.

....os pés tocavam com displicência o vaso de flores. Balançando na rede, sentia seu coração opaco bater sistematicamente; uma cantiga velha e reticente. Cantiga que carrega no peito já fazem primaveras...

O vento entrava com voracidade.

--O balançar da rede causaria vertigem à minha mãe, a velha nunca gostou de balançar-se em rede, passou-lhe magoadamente a memória da mãe morta. O corpo da mãe fora velado na mesma rede que mais tarde estaria morta de repentino ataque de cólera. Seu ódio a matou. Se ódio mata? Mata. Ódio e amor matam na mesma intensidade.

....o balanço da rede continuava; lento e barroco – canções de ninar tocavam ásperamente ao fundo de sua alma...Não amava e nem odiava . Se morreria de tédio ela não sabia. E tédio mata? Mata. Mata tanto quando ódio e amor. Tédio é a antítese de tudo que faz sentido. é a morte do sentido.

Acendeu um cigarro e o deixou queimar sozinho. Nem um só trago. Não queria acelerar sua morte – pensou- queria mesmo morrer de tédio: morte lenta e gradual. Morreria para si mesma e para sua mãe. Morreria para a mágoa e para o rancor de sua felicidade; sua felicidade sempre fora a custa de sua mãe. Deixou o cigarro queimar...Derrubou o vaso com os pés. Ouviu-se ao longe o som do vaso quebrar e seu grito roco e fingido.

Eu derrubei o vaso.

--Eu mesma derrubei e quebrei à propósito da morte de minha velha avó – escreveu no ar com os dedos rígidos...

“ L’amour est un oiseau rebelle”.

Monday, October 02, 2006

O pouco essencial

Como se viver fosse opcional todos passam por mim como um nariz entupido - não servem pra nada. Um tom amargo e sem piedade pode seguir meus escritos...se eu continar a escrever agora.
Mas não poder me identificar com ninguém é um peso mais forte que meu próprio peso. Ficarei com o pouco, pois o que é pouco é sempre essencial.

Friday, September 29, 2006

demais pra mim

Não sou mais adolescente; não me sinto mais tão novo. Ao mesmo tempo sinto-me despreparado para as conveniências da vida - sinto-me desperto de um jeito novo e arrogante. Não me falem de humildade fingida, pois sou humilde no sentido mais desprezível da palavra: sou merda. Sinto um asco desmedido pela humildade histérica que reina nos fingimentos embelezados dos patéticos de plantão.

Não é que eu nunca sinta pena de mim- sinto. Mas repudio a mim mesmo quando vejo em mim a misericórdia por mim mesmo. compaixão é coisa que se sinta pelos outros; não quero ter compaixão por mim mesmo, deixe que os outros sintam pena de mim. Nem mesmo mereço. Nem ao menos quero.

Sinto uma dor inflamada. É minha vida sendo demais pra mim mesmo.

Friday, September 22, 2006

Sede de sede.

...e ela corria. Corria como quem corre atrás da cenoura imaginária; pra ela a vida sempre fora uma cenoura - sua carreira era a bricolagem de sua alma. Sempre soube que teria que fazer tudo mesmo sozinha, até o sexo estava solitário. Ah mas o sexo já não fazia mais sentido. Perguntava-se constantemente o porquê de tanto sexo no mundo – seria para anestesiar a corrida ou era ela que não gostava mesmo de sexo? Ela que acreditava no amor, ela que acreditou no amor...foi numa manhã de setembro.

-- Foi numa manhã de setembro que nos conhecemos, não foi ?

-- Ainda bem que você não me chamou de “minha querida”. Eu teria caído-lhe de bofetadas. Você é um cafajeste. Sua vida é uma cafajestada só. Sempre fui estranha, hum? O que dizes? Ainda o sou? Sim, sou mesmo. Estranha porque eu corro como tudo mundo, só que eu sei que corro, sei também que ninguém vai chegar a lugar algum. Mas tu, ah tu cultivas a ilusão, que não é só sua, de que corres para chegar. Não chegarás a lugar algum. Porque, na verdade, já chegaste: chegaste ao nada de merda que é tua vida. Seu miserável. Tu me consomes. Tua alma rasgada bebe toda minha sede. Não tenho sede por tua causa: seu alcoólatra de sede. Meu repúdio por tua boca vem da sede que me roubas. Nunca mais bebi nada por tua causa. Cafajeste.

Cafajeste.

-- O mundo está cheio de cafajeste- fala para a moça na floricultura onde pára para comprar uma rosa vermelha- eu mesma quase morri por causa de mim, mas não morro mais. Eu ? Sim. Solteira, já há tempos...Descobri que morro melhor sozinha. Vocês vendem água também? Sim? Ótimo! Desde que fiquei solteira voltei a beber água.

Continuo sua corrida. Sem rumo, sem sina...Sem corredor. Ela queria correr sem corredor. Dizia que sua vida sempre fora um corredor, daqueles bem compridos que dão para um só quarto – limitado e com um destino certo, mesmo que fosse ir e voltar. Cansou-se. Sentou para beber água da fonte. Teve medo de enlouquecer. A rotina da vida era-lhe tão asfixiante. Ficou sentada, olhando inerte para a estátua que urinava: o mijo também era água.

Cafajeste....acabou comigo.

Sunday, September 10, 2006

Anjo caído

“ ... Sometimes I tremble in the dark
I cannot see
When the people frighten me
I try to hide myself so far from the crowd
Is anybody there to confort me
Lord...take care of me” ( How can I go on? Freddie Mercyry)

…a esmo colocou quatro cds no aparelho de som; Aznavour, Montserrat Caballé e Vivald.

Ela podia ouvir vindo da parede de sua estranha vizinha o som de Freddie Mercury. Um quê de ressentimento brotou em seu coração. “ Ele não podia ter morrido”. Pensou isso porque essa noite sonhara que sua irmã se atirava do alto de um hotel no qual estavam hospedadas. A dor da perda ainda ardia em seu coração. No sonho, a irmã deixara um bilhete no qual dizia: “ você só entenderá o motivo de minha morte daqui a duzentos anos”.

Sentou-se para escrever. Pensou em plagiar Freddie Mercury; “Now the wind has lost my sail”. Bastaria uma boa tradução e umas adaptações aqui e acolá que todos pensariam ser dela a belíssima frase. Mas ela era muito sonsa para tal feito – desonestidade era para pessoas inteligentes – ela sempre fora burra no sentido mais pejorativo da palavra: ela que carregava uma carga que não era sua.

Escreveu no verso de uma conta de luz: só daqui a duzentos anos. O sentido deste sonho permanecia desconhecido. Em duzentos anos ela não estaria viva. Mas teria ela realmente sonhado com o número duzentos? Já não sabia. Sua mania de reconstruir os sonhos depois que acordava mostrava-se melhor arma do que o esquecimento. Teria inventado o número duzentos para mascarar o real conteúdo da mensagem? Sua irmã se joga do alto de um hotel. Tudo muito misturado. Sentiu uma culpa incrível no sonho quando viu o corpo de sua irmã morta lá embaixo. Sabia que rapidamente sua mãe e pai chegariam ao seu quarto para tomar satisfações. Era como se ela mesma tivesse empurrado sua irmã, mas não, a verdade; sim, a verdade do seu sonho foi de um suicídio. Seus pais entraram correndo no quarto desesperados. Ela , ao contrário, sentia remorso e um grave incômodo pela presença de seus pais- sentia-se como Caim – acaso era ela a guardiã de sua irmã?

“ How can I go from day to day...you can make me strong in every way...” continuava a ressoar em sua mente o tema do suicídio. Teria sido o sonho um presságio de sua própria morte? Ainda não se podia saber. Sentada pensou em escrever um poema:

Não se pode, não se pode, não se poder.

Mas eu posso , mas eu posso, mas eu posso.

Passou a noite sentada na cadeira de plástico. Só saiu isso. A noite toda com a caneta na mão e não conseguira escrever uma só página. O sol já entrava pelas janelas quando, finalmente, caiu no sono, dormiu sentada. Sonhou que era um anjo. Um anjo de asas rotas que voava por sobre o Rio de Janeiro. Voou sobre o Corcovado e sobre o Cristo Redentor. Passando pelo Cristo gritou: - Salva-te a ti mesmo! Voou sobre a Rocinha. Queria cair lá mesmo. Mas que nada. continuo voando, e , de repente estava sobrevoando um velho hotel. Lá do alto podia ver uma jovem se jogando do décimo andar. Pensou consigo mesma que esta era a hora para suas velhas asas falharem. Caiu sem esforço...A queda era pura e sem som. Caia como fruta velha. Como anjo caído mesmo. Anjo caído cai com medo e antecipação. Queria se renovar. Caiu sobre a corpo despedaçado da jovem suicida.

Ao acordar do sonho as coisas estavam um pouco mais claras. Nunca mais veria sua irmã. Subiu na janela e pulou sem pensar. Morava no 15º andar. Morreu rápido, mas deixou uma cena. Caiu bamba sobre um piano velho que esperava para ser erguido. No seu apartamento calado ouvia-se tocar Vivald ...